
"O Natal é a festa mais influente, importante e motivadora do mundo. Todo o mundo, de uma maneira ou de outra, a celebra.
O Natal é a única festa cristã que toda a gente celebra. Podemos mesmo dizer que uma das poucas coisas de que o nosso tempo gosta na Igreja é o Natal, a maior festa do mundo.
Mas, ao mesmo tempo, o Natal é a festa em que os cristãos mais resmungam. Grande parte dos cristãos passa o Natal a criticar o mundo pela forma como ele celebra o Natal. O mundo passa o Natal a comprar presentes, a comer fritos e a enfeitar árvores. Os cristãos passam o Natal a fazer exactamente o mesmo. Mas a achar que os outros, ao fazerem isso, não têm espírito de Natal.
Além disso, muitos cristãos bem intencionados desvalorizam o Natal. Eles acham que "o Natal devia ser sempre", que "Natal é quando um homem quiser" ou que "o Natal não interessa porque está destruído pelas compras e pelos banquetes". Assim, para muitos cristãos, o Natal não é a festa única que realmente é, porque deveria ser outra coisa. Tudo isto mostra que existe, sem dúvida, um mistério no Natal.
Por que razão tanta gente gosta do Natal? Por que razão tantos se zangam pela forma como os outros gostam do Natal? Visto por fora, o Natal é composto pelas compras, pelos fritos, presentes e pela festa da família.
(...)
A grande maioria das pessoas que fala sobre as compras de Natal quer criticá-las. O tempo e dinheiro que se gasta nisto poderiam ser gastos de forma muito mais útil. Os presentes de Natal são uma hipocrisia sem sentido, nada significam para quem dá nem para quem recebe. Os enfeites da árvore são uma tolice que não quer dizer nada. Os fritos, esses, só fazem mal ao estômago. No fundo, estas coisas não passam de um truque capitalista para nos vir ao bolso. É difícil encontrar outra coisa tão vasta e tão influente e que, ao mesmo tempo, tantos critiquem tanto.
Mas, afinal, qual é o mal das compras, dos enfeites e dos fritos? No fundo, os presentes de Natal significam que, durante uma época do ano, nós andamos a procurar dar coisas a quem gostamos e a mostrar-lhes que gostamos deles. As festas, os jantares e os enfeites servem para nos sentirmos felizes com os outros. Tudo isso são coisas boas.
Além disso, por causa do Natal, anda tudo bem disposto, com "espírito natalício". Junta-se a família que não se vê há tempos. Somos simpáticos para os estranhos. Até damos esmolas e presentes a desconhccidos. As empresas celebram o Natal connosco. Enfeita-se as ruas e pensa-se nos pobres. Tudo isto porque é Natal.
É claro que há muita hipocrisia, que há muito consumismo, que há muito oportunismo. Não há dúvida de que se dá brinquedos a mais e a digestão é mais difícil. Têm razão quando dizem que frequentemente falta o verdadeiro espírito e que, além disso, deveria ser todo o ano. Mas esse mal não vem do Natal. O mal já lá estava nas pessoas. E no Natal é disfarçado, diminuído, por vezes vencido. Nós somos maus. O Natal, esse, é muito bom e até nos faz um bocadinho menos maus.
O que se passa connosco quando criticamos o Natal é que nós somos idealistas, e não realistas. Dizer que é pouco e deveria ser mais não é uma atitude cristã. O cristão sabe que sofre da mancha do pecado original e da manha da natureza humana. Se percebermos que a nossa natureza é pecadora, em vez de lamentarmos que só haja Natal um dia por ano, deveríamos era estar agradecidos por haver Natal.
Que no Natal, dia do nascimento de Cristo, toda a gente ande a tentar ser feliz e a ajudar os outros é uma coisa excelente. Nem sempre corre bem, mas todos fazem um esforço, por pequeno que seja. Só porque o Senhor nasceu.
Será que o Natal é mesmo a festa da família? Para perceber isso temos de perceber o que é a família. Não a descrição externa, que diz que a família é a célula básica da sociedade ou outras banalidades equivalentes, mas o sentido profundo e verdadeiro da família.
A maior força do universo é aquela que liga Deus ao Seu Verbo. Não há força mais poderosa e sublime do que aquela que une Deus a Si mesmo. Ora, quando o Verbo no-la quis explicar a nós, humanos limitados, só o conseguiu dizer falando na relação entre um Pai e um Filho. O amor que une Deus a Si mesmo é um mistério insondável, indescritível, por estar muito acima da capacidade humana de entender. Mas quando Deus tentou explicar-nos isso a nós, pobres seres, só o conseguiu com referência a uma realidade bem humana: a relação filial.
(...)
Esta força que une o Pai e o Filho é uma pessoa divina. Chama-se Espírito Santo.
(...)
Então, o que é ser família, hoje ou em qualquer altura? A resposta é esta: o ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus, vive no seio da sua família uma das maiores semelhanças com o Deus Trindade. O segredo da família é o Espírito Santo. Essa Pessoa foi bem visível no Natal. Mas a manifestação do Espírito Santo no mundo é a Igreja.
(...)
O significado do Natal é o facto que nos revelou que Deus é, na Sua essência, uma família. Os judeus conheciam bem Deus, sabiam muitas coisas sobre Ele, reveladas pelos profetas. Aquilo que Cristo nos trouxe de novidade, há 2000 anos, é algo que ninguém no mundo sabia, nem os profetas, nem os judeus: que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, que Deus é uma família. E, além disso, que Cristo, para o revelar, queria constituir a Igreja. Que Deus queria fazer com os homens uma família. O que Cristo nos veio dizer, nascendo no Natal, tinha tudo a ver com a família. Assim o Natal, se o entendermos bem, é mesmo a festa da família. Porque foi com o Natal, e só com o Natal, que nós ficámos a saber que Deus é uma família. Foi no Natal que nasceu a Igreja, a família de Deus com os homens."
João César das Neves in Parábolas sobre Jesus